sexta-feira, 25 de novembro de 2011

um sininho azul

Já faz um tempo que eu não venho aqui. Desculpa ter demorado tanto pra voltar... é que as pessoas grandes às vezes tem tanta coisa pra fazer, e tanta coisa chata, que acabam até esquecendo o que é importante de verdade. É essencial, por exemplo, olhar as nuvens de vez em quando. Pensar em como devem ser macias, em quantas cores elas tem, e ver nelas um elefante, um leão, um dragão ou um sorvete. Hoje, enquanto olhava as nuvens cinza e laranja no pôr do sol, notei como fazia tempo que não olhava pra elas. E quanto tempo fazia que não vinha aqui!

Como eu estava começando a te contar, mamãe era uma pessoa genial. E além de fazer coisas incríveis de ver e brincar e coisas gostosas de comer, tinha as histórias mais lindas pra contar. Histórias de quando ela veio de um país muuuito distante, onde as pessoas falavam uma língua bem diferente. Ela veio de navio, um navio muito grande. E foi uma viagem muito grande também, tão grande para uma mamãe tão pequena (é claro que ela nem sonhava que ia ser mamãe da menina ainda, mas já era ela! Os mesmos olhos azuis sorridentes). Era Natal, e antes de mamãe entrar no navio, ela e sua irmã um pouco maior e a sua outra irmã ainda maior e a outra irmã maior ainda (eram quatro meninas! Imagine que bagunça!) e a mãe de mamãe (a nagymama) passearam por uma cidade linda, enorme e cheia de luzes de Natal e neve chamada Viena. A viagem foi difícil e demorou muito, muito mesmo. E era um tempo triste, um tempo de guerra. Tem muita coisa triste no mundo. Mas mamãe lembra de como Viena era uma cidade linda e guarda até hoje um sininho azul que ganhou lá, quando era mamãe-pequena. Um sininho de enfeite de árvore de Natal. Em todo Natal até hoje, mamãe põe o sino azul no pinheirinho de Natal pra lembrar daquela cidade iluminada que era como um cobertor quentinho numa noite fria.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

ERA UMA VEZ...

Era uma vez uma menina que morava numa ilha. Uma menina curiosa, que amava sua mamãe e gostava de passear pelo bosque e colher flores - como a Chapeuzinho Vermelho!
Mas, bem diferente da Chapeuzinho, ela sempre obedecia a mãe dela. Isso fazia com que outras crianças achassem que ela era meio chata, e com que os adultos sempre dissessem: "Que gracinha de menina! Tão educada...".
A menina não sabia o que achar disso. Não sabia se era bom ou ruim. Assim são algumas coisas no mundo, a gente não sabe o que achar delas. Tenho certeza de que você vai se pegar pensando, um dia desses, em uma coisa assim (como comer um doce escondido, ou rir de uma pessoa que dá um escorregão e cai de bumbum no chão).
Tinha tanta coisa que a menina não sabia! Quando olhava os grandes dando gargalhadas, esperava que os sorrisos ficassem sempre lá - mas, de repente o sorriso ia sumindo, devagar, a boca voltava a ser um risco sério. Às vezes, os grandes ficavam brabos (ela chamava de "dentados", porque eles arreganhavam os dentes quando estavam MUITO brabos, como um cachorro). Ela também ficava zangada, às vezes porque tinha que fazer uma coisa e não queria (ou queria fazer uma coisa e não podia). Às vezes, ficava zangada sem nem saber por quê.
Ela gostava muito de ler gibi, assistir desenho e brincar de boneca. De soltar pipa e de correr. De ir à praia e de comer cachorro quente (com mostarda) e picolé mini-saia (que tinha a metade de chocolate e a outra metade de baunilha). Mas o que ela gostava mesmo era de brincar com a mamãe. E a mamãe era tão criativa, tão inventadora de coisas! Ela trabalhava muito, mas todo o tempo que tinha sobrando ela dedicava à menina. Ensinava a desenhar, a fazer brinquedos, corria e nadava e pulava e cantava com a menina. Ensinava também coisas de gente grande, como esfregar meia encardida, costurar, cuidar das flores, até cozinhar, um pouquinho. Ela fazia comidas deliciosas! Mamãe sabia fazer TUDO, tudo mesmo que você imaginar. O pai dela ensinou pra ela até coisas de menino, como consertar o carro e trocar o chuveiro. Mamãe era uma heroína para a menina.