O pezinho
Bate a ponta
e o calcanhar
Bate a ponta
e o calcanhar
Pezinho sobe e desce
bate bate no colchão
A hora de dormir é um frevo
A mãozinha
Xique-xique
Xique-xique
DUM
A mãozinha abre-fecha
arranha a poltrona, o lençol, a parede
TAP bate no colo da mãe
A hora de dormir é um samba
A boquinha
mama, mama
sorri
mama, mama
sorri
Fala shhhhh porque já ouviu shhhhh
A hora de dormir é um baile que se estende por horas toda noite
Mural de Instantes
mostrando a um pequeno príncipe as cores da minha vida
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
Sobre cheiros e poesia
Cada casa tem um
cheiro. A gente não sente o cheiro da nossa casa, só da casa dos outros. A casa
de uma amiga pode ter cheiro de café fresquinho e manteiga no pão; ou, de
repente, a mamãe do bebê reconhece em uma roupinha que a mãe do outro menino emprestou
ao bebê o cheiro da casa do menino. Cheiro de roupa limpinha e sol.
A menina que morava
na ilha tinha uma amiga pequena igual a ela. Um pouco menor, na verdade. Pra ir
na casa da amiga, era bem fácil. A menina perguntava primeiro se a mamãe deixava
e depois ligava lá pra saber se a mãe da amiga deixava. Aí, se tudo desse
certo, era só atravessar uma cerca-viva, descer um morrinho, atravessar uma
casa (que nunca tinha ninguém), outra cerca, e pronto! Um caminho secreto até a
casa da amiga.
A casa da amiga tinha
um cheiro bom, de madeira e cobertor. A menina comeu uma vez lá na casa da
amiga um macarrão-espaguete tão gostoso feito pela mãe da amiga que mesmo
depois de menina-mãe nunca conseguiu fazer igual. A casa da amiga tinha um
quadro com um mapa e figuras de piratas, navios e uma sereia muito esquisita.
Tinha um telhado engraçado até o chão, e elas jogavam bolinhas no telhado pra
elas descerem pelos vãos das telhas compridas. Quando a menina dormia lá na
casa da amiga, elas assistiam ao desenho da pantera cor-de-rosa no domingo de
manhã.
Mas legal mesmo era
visitar a tia da menina. Tinha uma cidade grandona, grandona mesmo, cheia de
prédios (coisa que a menina não via lá na ilha), com muitas luzes à noite, com
muitos carros sempre, com cheiro de fumaça, com muita gente. Ela achava que era
a mesma cidade que via na TV, numa cena em que um menino voava, quentinho em
sua cama, através da noite fria, passando pelas luzes das casas e edifícios da
cidade grande, enquanto o homem cantava uma música linda de ninar, que falava
de lua e mar e colo.
A casa dessa tia
também tinha um cheiro, é claro, como todas as casas. De madeira das cadeiras e
prateleiras e de comida gostosa, e acho que tinha gosto de refúgio da cidade
grandona, que era uma novidade incrível mas meio assustadora às vezes. Na
entrada tinha uma carranca – uma cara de madeira com uns dentes brancos enormes
e língua vermelha de fora, e um cabelo preto. E era do tamanho da menina! Essa
era outra coisa que era linda e terrível, igual àquela cidade tão grande. A
casa da tia tinha outro cheiro especial: cheiro de livro, livros grandes e
pequenos, e novos e velhos, de todos os tipos. E tinha lápis de cor e giz e
papel pra desenhar, e quadros lindos na parede com desenhos (que a tia da
menina fazia!). Como a menina adorava aquela casa! Como adorava aquela tia! E a
tia, desde que a menina lembra, já perguntava: “Você lê poesia, menina?” E foi
a tia que deu o primeiro caderno pra escrever poesia, um com capa laranja e
amarela e um coqueiro na frente, e na primeira página um poema que um homem
escreveu há muito tempo, que fala sobre amigos; e foi essa mesma tia que,
depois da menina grande, depois de anos sem conversarem, perguntou: menina, que
tem lido de poesia? Qual teu livro de cabeceira, aquele que tá sempre lá
contigo, o teu companheiro? E então a menina – já grande – achava que tinha
muitas respostas e contou de tudo que vinha lendo. Mas ficou meio triste depois,
porque lá, na cabeceira da cama, tinha livros – uns 6, na verdade, todos
começados, mas não acabados. Eles iam e vinham da cabeceira, mas com frequência
ficavam pela metade, que nem um sorvete que cai no chão. E nenhum deles era de
poesia.
A menina, agora um pouco
mais velha, acha que a casa dela, dela mesma, que ela vai ter um dia, tem que
ter cheiro de bolo. E de roupa limpinha. E um jardim fresco com flores, e louça
branca e sol na cozinha, e música de criança e de passarinho – e de piano
também, que ela toca às vezes – e quadros que ela também vai pintar; e ela vai
fazer um macarrão muito gostoso também, para pessoas queridas. Mas o mais
importante: vai ter livros e poesia. E agora ela descobriu que a poesia também
está nisso tudo aí que faz a casa dela e seu cheiro – que talvez ela não sinta
quando estiver dentro da casa, mas saberá que está lá e que pessoas queridas o
sentem. E quando voltar de uma viagem longa para outras ilhas, e chegar na
casa, talvez sinta o cheiro de tudo aquilo que pra ela é querido, de tudo que é
a vida dela. E esse é o verdadeiro cheiro da casa da gente.
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
um sininho azul
Já faz um tempo que eu não venho aqui. Desculpa ter demorado tanto pra voltar... é que as pessoas grandes às vezes tem tanta coisa pra fazer, e tanta coisa chata, que acabam até esquecendo o que é importante de verdade. É essencial, por exemplo, olhar as nuvens de vez em quando. Pensar em como devem ser macias, em quantas cores elas tem, e ver nelas um elefante, um leão, um dragão ou um sorvete. Hoje, enquanto olhava as nuvens cinza e laranja no pôr do sol, notei como fazia tempo que não olhava pra elas. E quanto tempo fazia que não vinha aqui!
Como eu estava começando a te contar, mamãe era uma pessoa genial. E além de fazer coisas incríveis de ver e brincar e coisas gostosas de comer, tinha as histórias mais lindas pra contar. Histórias de quando ela veio de um país muuuito distante, onde as pessoas falavam uma língua bem diferente. Ela veio de navio, um navio muito grande. E foi uma viagem muito grande também, tão grande para uma mamãe tão pequena (é claro que ela nem sonhava que ia ser mamãe da menina ainda, mas já era ela! Os mesmos olhos azuis sorridentes). Era Natal, e antes de mamãe entrar no navio, ela e sua irmã um pouco maior e a sua outra irmã ainda maior e a outra irmã maior ainda (eram quatro meninas! Imagine que bagunça!) e a mãe de mamãe (a nagymama) passearam por uma cidade linda, enorme e cheia de luzes de Natal e neve chamada Viena. A viagem foi difícil e demorou muito, muito mesmo. E era um tempo triste, um tempo de guerra. Tem muita coisa triste no mundo. Mas mamãe lembra de como Viena era uma cidade linda e guarda até hoje um sininho azul que ganhou lá, quando era mamãe-pequena. Um sininho de enfeite de árvore de Natal. Em todo Natal até hoje, mamãe põe o sino azul no pinheirinho de Natal pra lembrar daquela cidade iluminada que era como um cobertor quentinho numa noite fria.
Como eu estava começando a te contar, mamãe era uma pessoa genial. E além de fazer coisas incríveis de ver e brincar e coisas gostosas de comer, tinha as histórias mais lindas pra contar. Histórias de quando ela veio de um país muuuito distante, onde as pessoas falavam uma língua bem diferente. Ela veio de navio, um navio muito grande. E foi uma viagem muito grande também, tão grande para uma mamãe tão pequena (é claro que ela nem sonhava que ia ser mamãe da menina ainda, mas já era ela! Os mesmos olhos azuis sorridentes). Era Natal, e antes de mamãe entrar no navio, ela e sua irmã um pouco maior e a sua outra irmã ainda maior e a outra irmã maior ainda (eram quatro meninas! Imagine que bagunça!) e a mãe de mamãe (a nagymama) passearam por uma cidade linda, enorme e cheia de luzes de Natal e neve chamada Viena. A viagem foi difícil e demorou muito, muito mesmo. E era um tempo triste, um tempo de guerra. Tem muita coisa triste no mundo. Mas mamãe lembra de como Viena era uma cidade linda e guarda até hoje um sininho azul que ganhou lá, quando era mamãe-pequena. Um sininho de enfeite de árvore de Natal. Em todo Natal até hoje, mamãe põe o sino azul no pinheirinho de Natal pra lembrar daquela cidade iluminada que era como um cobertor quentinho numa noite fria.
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
ERA UMA VEZ...
Era uma vez uma menina que morava numa ilha. Uma menina curiosa, que amava sua mamãe e gostava de passear pelo bosque e colher flores - como a Chapeuzinho Vermelho!
Mas, bem diferente da Chapeuzinho, ela sempre obedecia a mãe dela. Isso fazia com que outras crianças achassem que ela era meio chata, e com que os adultos sempre dissessem: "Que gracinha de menina! Tão educada...".
A menina não sabia o que achar disso. Não sabia se era bom ou ruim. Assim são algumas coisas no mundo, a gente não sabe o que achar delas. Tenho certeza de que você vai se pegar pensando, um dia desses, em uma coisa assim (como comer um doce escondido, ou rir de uma pessoa que dá um escorregão e cai de bumbum no chão).
Tinha tanta coisa que a menina não sabia! Quando olhava os grandes dando gargalhadas, esperava que os sorrisos ficassem sempre lá - mas, de repente o sorriso ia sumindo, devagar, a boca voltava a ser um risco sério. Às vezes, os grandes ficavam brabos (ela chamava de "dentados", porque eles arreganhavam os dentes quando estavam MUITO brabos, como um cachorro). Ela também ficava zangada, às vezes porque tinha que fazer uma coisa e não queria (ou queria fazer uma coisa e não podia). Às vezes, ficava zangada sem nem saber por quê.
Ela gostava muito de ler gibi, assistir desenho e brincar de boneca. De soltar pipa e de correr. De ir à praia e de comer cachorro quente (com mostarda) e picolé mini-saia (que tinha a metade de chocolate e a outra metade de baunilha). Mas o que ela gostava mesmo era de brincar com a mamãe. E a mamãe era tão criativa, tão inventadora de coisas! Ela trabalhava muito, mas todo o tempo que tinha sobrando ela dedicava à menina. Ensinava a desenhar, a fazer brinquedos, corria e nadava e pulava e cantava com a menina. Ensinava também coisas de gente grande, como esfregar meia encardida, costurar, cuidar das flores, até cozinhar, um pouquinho. Ela fazia comidas deliciosas! Mamãe sabia fazer TUDO, tudo mesmo que você imaginar. O pai dela ensinou pra ela até coisas de menino, como consertar o carro e trocar o chuveiro. Mamãe era uma heroína para a menina.
Mas, bem diferente da Chapeuzinho, ela sempre obedecia a mãe dela. Isso fazia com que outras crianças achassem que ela era meio chata, e com que os adultos sempre dissessem: "Que gracinha de menina! Tão educada...".
A menina não sabia o que achar disso. Não sabia se era bom ou ruim. Assim são algumas coisas no mundo, a gente não sabe o que achar delas. Tenho certeza de que você vai se pegar pensando, um dia desses, em uma coisa assim (como comer um doce escondido, ou rir de uma pessoa que dá um escorregão e cai de bumbum no chão).
Tinha tanta coisa que a menina não sabia! Quando olhava os grandes dando gargalhadas, esperava que os sorrisos ficassem sempre lá - mas, de repente o sorriso ia sumindo, devagar, a boca voltava a ser um risco sério. Às vezes, os grandes ficavam brabos (ela chamava de "dentados", porque eles arreganhavam os dentes quando estavam MUITO brabos, como um cachorro). Ela também ficava zangada, às vezes porque tinha que fazer uma coisa e não queria (ou queria fazer uma coisa e não podia). Às vezes, ficava zangada sem nem saber por quê.
Ela gostava muito de ler gibi, assistir desenho e brincar de boneca. De soltar pipa e de correr. De ir à praia e de comer cachorro quente (com mostarda) e picolé mini-saia (que tinha a metade de chocolate e a outra metade de baunilha). Mas o que ela gostava mesmo era de brincar com a mamãe. E a mamãe era tão criativa, tão inventadora de coisas! Ela trabalhava muito, mas todo o tempo que tinha sobrando ela dedicava à menina. Ensinava a desenhar, a fazer brinquedos, corria e nadava e pulava e cantava com a menina. Ensinava também coisas de gente grande, como esfregar meia encardida, costurar, cuidar das flores, até cozinhar, um pouquinho. Ela fazia comidas deliciosas! Mamãe sabia fazer TUDO, tudo mesmo que você imaginar. O pai dela ensinou pra ela até coisas de menino, como consertar o carro e trocar o chuveiro. Mamãe era uma heroína para a menina.
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