Cada casa tem um
cheiro. A gente não sente o cheiro da nossa casa, só da casa dos outros. A casa
de uma amiga pode ter cheiro de café fresquinho e manteiga no pão; ou, de
repente, a mamãe do bebê reconhece em uma roupinha que a mãe do outro menino emprestou
ao bebê o cheiro da casa do menino. Cheiro de roupa limpinha e sol.
A menina que morava
na ilha tinha uma amiga pequena igual a ela. Um pouco menor, na verdade. Pra ir
na casa da amiga, era bem fácil. A menina perguntava primeiro se a mamãe deixava
e depois ligava lá pra saber se a mãe da amiga deixava. Aí, se tudo desse
certo, era só atravessar uma cerca-viva, descer um morrinho, atravessar uma
casa (que nunca tinha ninguém), outra cerca, e pronto! Um caminho secreto até a
casa da amiga.
A casa da amiga tinha
um cheiro bom, de madeira e cobertor. A menina comeu uma vez lá na casa da
amiga um macarrão-espaguete tão gostoso feito pela mãe da amiga que mesmo
depois de menina-mãe nunca conseguiu fazer igual. A casa da amiga tinha um
quadro com um mapa e figuras de piratas, navios e uma sereia muito esquisita.
Tinha um telhado engraçado até o chão, e elas jogavam bolinhas no telhado pra
elas descerem pelos vãos das telhas compridas. Quando a menina dormia lá na
casa da amiga, elas assistiam ao desenho da pantera cor-de-rosa no domingo de
manhã.
Mas legal mesmo era
visitar a tia da menina. Tinha uma cidade grandona, grandona mesmo, cheia de
prédios (coisa que a menina não via lá na ilha), com muitas luzes à noite, com
muitos carros sempre, com cheiro de fumaça, com muita gente. Ela achava que era
a mesma cidade que via na TV, numa cena em que um menino voava, quentinho em
sua cama, através da noite fria, passando pelas luzes das casas e edifícios da
cidade grande, enquanto o homem cantava uma música linda de ninar, que falava
de lua e mar e colo.
A casa dessa tia
também tinha um cheiro, é claro, como todas as casas. De madeira das cadeiras e
prateleiras e de comida gostosa, e acho que tinha gosto de refúgio da cidade
grandona, que era uma novidade incrível mas meio assustadora às vezes. Na
entrada tinha uma carranca – uma cara de madeira com uns dentes brancos enormes
e língua vermelha de fora, e um cabelo preto. E era do tamanho da menina! Essa
era outra coisa que era linda e terrível, igual àquela cidade tão grande. A
casa da tia tinha outro cheiro especial: cheiro de livro, livros grandes e
pequenos, e novos e velhos, de todos os tipos. E tinha lápis de cor e giz e
papel pra desenhar, e quadros lindos na parede com desenhos (que a tia da
menina fazia!). Como a menina adorava aquela casa! Como adorava aquela tia! E a
tia, desde que a menina lembra, já perguntava: “Você lê poesia, menina?” E foi
a tia que deu o primeiro caderno pra escrever poesia, um com capa laranja e
amarela e um coqueiro na frente, e na primeira página um poema que um homem
escreveu há muito tempo, que fala sobre amigos; e foi essa mesma tia que,
depois da menina grande, depois de anos sem conversarem, perguntou: menina, que
tem lido de poesia? Qual teu livro de cabeceira, aquele que tá sempre lá
contigo, o teu companheiro? E então a menina – já grande – achava que tinha
muitas respostas e contou de tudo que vinha lendo. Mas ficou meio triste depois,
porque lá, na cabeceira da cama, tinha livros – uns 6, na verdade, todos
começados, mas não acabados. Eles iam e vinham da cabeceira, mas com frequência
ficavam pela metade, que nem um sorvete que cai no chão. E nenhum deles era de
poesia.
A menina, agora um pouco
mais velha, acha que a casa dela, dela mesma, que ela vai ter um dia, tem que
ter cheiro de bolo. E de roupa limpinha. E um jardim fresco com flores, e louça
branca e sol na cozinha, e música de criança e de passarinho – e de piano
também, que ela toca às vezes – e quadros que ela também vai pintar; e ela vai
fazer um macarrão muito gostoso também, para pessoas queridas. Mas o mais
importante: vai ter livros e poesia. E agora ela descobriu que a poesia também
está nisso tudo aí que faz a casa dela e seu cheiro – que talvez ela não sinta
quando estiver dentro da casa, mas saberá que está lá e que pessoas queridas o
sentem. E quando voltar de uma viagem longa para outras ilhas, e chegar na
casa, talvez sinta o cheiro de tudo aquilo que pra ela é querido, de tudo que é
a vida dela. E esse é o verdadeiro cheiro da casa da gente.