segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Sobre cheiros e poesia

Cada casa tem um cheiro. A gente não sente o cheiro da nossa casa, só da casa dos outros. A casa de uma amiga pode ter cheiro de café fresquinho e manteiga no pão; ou, de repente, a mamãe do bebê reconhece em uma roupinha que a mãe do outro menino emprestou ao bebê o cheiro da casa do menino. Cheiro de roupa limpinha e sol.
A menina que morava na ilha tinha uma amiga pequena igual a ela. Um pouco menor, na verdade. Pra ir na casa da amiga, era bem fácil. A menina perguntava primeiro se a mamãe deixava e depois ligava lá pra saber se a mãe da amiga deixava. Aí, se tudo desse certo, era só atravessar uma cerca-viva, descer um morrinho, atravessar uma casa (que nunca tinha ninguém), outra cerca, e pronto! Um caminho secreto até a casa da amiga.
A casa da amiga tinha um cheiro bom, de madeira e cobertor. A menina comeu uma vez lá na casa da amiga um macarrão-espaguete tão gostoso feito pela mãe da amiga que mesmo depois de menina-mãe nunca conseguiu fazer igual. A casa da amiga tinha um quadro com um mapa e figuras de piratas, navios e uma sereia muito esquisita. Tinha um telhado engraçado até o chão, e elas jogavam bolinhas no telhado pra elas descerem pelos vãos das telhas compridas. Quando a menina dormia lá na casa da amiga, elas assistiam ao desenho da pantera cor-de-rosa no domingo de manhã.
Mas legal mesmo era visitar a tia da menina. Tinha uma cidade grandona, grandona mesmo, cheia de prédios (coisa que a menina não via lá na ilha), com muitas luzes à noite, com muitos carros sempre, com cheiro de fumaça, com muita gente. Ela achava que era a mesma cidade que via na TV, numa cena em que um menino voava, quentinho em sua cama, através da noite fria, passando pelas luzes das casas e edifícios da cidade grande, enquanto o homem cantava uma música linda de ninar, que falava de lua e mar e colo.
A casa dessa tia também tinha um cheiro, é claro, como todas as casas. De madeira das cadeiras e prateleiras e de comida gostosa, e acho que tinha gosto de refúgio da cidade grandona, que era uma novidade incrível mas meio assustadora às vezes. Na entrada tinha uma carranca – uma cara de madeira com uns dentes brancos enormes e língua vermelha de fora, e um cabelo preto. E era do tamanho da menina! Essa era outra coisa que era linda e terrível, igual àquela cidade tão grande. A casa da tia tinha outro cheiro especial: cheiro de livro, livros grandes e pequenos, e novos e velhos, de todos os tipos. E tinha lápis de cor e giz e papel pra desenhar, e quadros lindos na parede com desenhos (que a tia da menina fazia!). Como a menina adorava aquela casa! Como adorava aquela tia! E a tia, desde que a menina lembra, já perguntava: “Você lê poesia, menina?” E foi a tia que deu o primeiro caderno pra escrever poesia, um com capa laranja e amarela e um coqueiro na frente, e na primeira página um poema que um homem escreveu há muito tempo, que fala sobre amigos; e foi essa mesma tia que, depois da menina grande, depois de anos sem conversarem, perguntou: menina, que tem lido de poesia? Qual teu livro de cabeceira, aquele que tá sempre lá contigo, o teu companheiro? E então a menina – já grande – achava que tinha muitas respostas e contou de tudo que vinha lendo. Mas ficou meio triste depois, porque lá, na cabeceira da cama, tinha livros – uns 6, na verdade, todos começados, mas não acabados. Eles iam e vinham da cabeceira, mas com frequência ficavam pela metade, que nem um sorvete que cai no chão. E nenhum deles era de poesia.
A menina, agora um pouco mais velha, acha que a casa dela, dela mesma, que ela vai ter um dia, tem que ter cheiro de bolo. E de roupa limpinha. E um jardim fresco com flores, e louça branca e sol na cozinha, e música de criança e de passarinho – e de piano também, que ela toca às vezes – e quadros que ela também vai pintar; e ela vai fazer um macarrão muito gostoso também, para pessoas queridas. Mas o mais importante: vai ter livros e poesia. E agora ela descobriu que a poesia também está nisso tudo aí que faz a casa dela e seu cheiro – que talvez ela não sinta quando estiver dentro da casa, mas saberá que está lá e que pessoas queridas o sentem. E quando voltar de uma viagem longa para outras ilhas, e chegar na casa, talvez sinta o cheiro de tudo aquilo que pra ela é querido, de tudo que é a vida dela. E esse é o verdadeiro cheiro da casa da gente.

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